Corrente Russa – Artigo

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Desenvolvimento da Força Muscular Através da Corrente Russa em Indivíduos Saudáveis

Autores: Sandra Cristina Lima Sivini e Antônio Carlos Tavares de Lucena
Fonte: Departamento de Fisioterapia / UFPE
 

RESUMO

Doze indivíduos saudáveis participaram desta investigação para determinar se a aplicação da estimulação elétrica, associada ou não a exercícios, aumenta força e massa muscular. Os indivíduos foram subdivididos em 4 grupos. Grupo A (n=3) foi o grupo controle (nenhum exercício, nenhuma estimulação elétrica). Grupo B (n=3) realizou os exercícios. No grupo C (n=3) aplicou-se a estimulação elétrica. E o grupo D (n=3) foi submetido à estimulação elétrica e aos exercícios. Todos os grupos experimentais evoluíram quanto às variáveis força e massa muscular. Porém, os grupos C e D apresentaram melhores resultados do que o grupo B, sugerindo que a estimulação elétrica, associada ou não aos exercícios, confere melhores resultados no fortalecimento muscular que os exercícios convencionais. UNITERMOS: Estimulação Elétrica, Corrente Russa, Força Muscular, Exercícios.ABSTRACTTwelve healthy individuals took part in an investigation to determine whether the application of electrical stimulation, associated or not to the exercises, increases strength and muscular mass. The individuals were divided into four groups. Group A (n=3) was a control group (no exercise, no electrical stimulation). Group B (n=3) realized the exercises. On the group C (n=3) applied the electrical stimulation, and the group D (n=3) was submitted the application of electrical stimulation and exercises. All the experimental groups developed as regards to the variables strenght and muscular mass. However, the group C and D displaied better results than group B, suggesting that electrical stimulation, associated or not to the exercises, has better effect on muscular strengthening than the conventional exercises. KEY WORDS: Electrical Stimulation, Russian Current, Muscular Strength, Exercises.INTRODUÇÃOA estimulação elétrica (ES) vem sendo utilizada no tratamento de pacientes desde épocas remotas12. De 1744 até o início do século XIX, foram publicados vários relatos sobre o uso da ES no tratamento da hemiplegia, gota, reumatismo, etc12. Durante os últimos 30 anos, a ES tem sido utilizada no tratamento de contraturas2, 14, 15, no fortalecimento muscular6, 15, e adicionalmente como um efetivo complemento no controle da dor7.Foram publicados numerosos artigos relativos ao efeito da ES no fortalecimento muscular. No entanto, os achados mais notáveis vieram das investigações administradas por Kots na Rússia1. Ele concluiu que a ES é um meio eficiente na aquisição de força muscular, tanto em indivíduos saudáveis como em pacientes no pós-operatório. A ES produziu melhores resultados do que um regime constituído apenas por exercícios. Kots sugeriu que um número maior de unidades motoras eram recrutadas através da ES em relação a uma contração voluntária. Reivindicou também que correntes de alta intensidade podiam proporcionar contrações 10 a 30% mais potentes que contrações voluntárias máximas1.Currier e Mann4, Massey et al11 e Currier et al3 demonstraram não haver nenhuma diferença significante na aquisição de força muscular entre grupos treinados com ES e contrações voluntárias. No entanto, Johnson et cols8, usando a ES como único modo de tratamento, relataram ganho de força de 25,3 e 200% entre pacientes portadores de condromalácia patelar moderada e severa, respectivamente.Eriksson e Häggmark6 obtiveram resultados sugestivos de que a ES associada a exercícios é mais efetiva na prevenção de atrofia muscular que um programa apenas de exercícios em pacientes no pós-operatório. De maneira similar, Williams e Street17 reivindicaram que a ES combinada a contração muscular ativa era imensamente superior aos exercícios isolados no restabelecimento da função do joelho.

Características do programa de ES, tais como: número de sessões, intensidade da corrente e freqüência são totalmente variáveis. Quanto ao número de sessões, alguns investigadores3, 16 observaram ganho significativo em 10 sessões. Outros, encontraram aumentos significantes entre 12 e 25 sessões4, 5, 11, 13.

Devido a enorme variedade de protocolos utilizados, comparações entre os estudos já publicados são difíceis. Logo, a proposta deste estudo é verificar se a ES no fortalecimento muscular, associada ou não a exercícios convencionais, é mais eficaz que um treinamento constituído apenas de exercícios.

Neste estudo utilizou-se a Corrente Russa, que é formada por pulsos de corrente do tipo trapezoidal, bipolar, simétrico, emitidos numa freqüência de 2500 Hz modulada por uma onda de 60 Hz9.

Esta corrente apresenta algumas vantagens em relação as de baixa freqüência. Uma delas está relacionada a impedância que o corpo humano oferece à condução da corrente elétrica9. Sabe-se que a impedância do corpo é capacitiva, e nos sistemas capacitivos a impedância será menor quanto fC)10.pmaior for a freqüência (Xc = ½Xc – Reatância Capacitiva proporcionada pela membrana celular;2 – Constante;f – Freqüência da corrente;C – Efeito capacitivo da membrana.Conclui-se, portanto, que numa corrente de média freqüência, como é o caso da Corrente Russa, o desconforto pelo qual o indivíduo está sendo submetido é sensivelmente diminuído e, devido a menor impedância oferecida à passagem da corrente, em conseqüência da diminuição do Efeito Joule (W = I2 .R.t), a ES é bem mais eficaz uma vez que recruta um maior número de fibras musculares10.

W – Energia dissipada sob forma de calor;

I – Corrente elétrica aplicada;

R – Efeito resistivo proporcionado pela passagem da corrente através das proteínas integrais (canais iônicos);

t – Tempo de aplicação da corrente elétrica.

METODOLOGIA

Participaram deste estudo doze indivíduos saudáveis, do sexo feminino, com idade entre 15 e 28 anos. Os participantes aceitaram bem o procedimento, consentindo na realização do mesmo. Não foram limitadas as atividades da vida diária, apenas solicitou-se aos participantes o não desempenho de atividade física durante o curso da experiência.

Os indivíduos foram subdivididos aleatoriamente em 4 grupos distintos, um grupo controle (A) e 3 experimentais (B, C e D). Ao grupo B foram indicados os exercícios . No grupo C aplicou-se a ES. O grupo D foi submetido à ES e aos exercícios.

Antes de iniciar o experimento e ao final do mesmo, todos foram submetidos a uma avaliação constituída de perimetria e dinamometria.

A perimetria foi realizada com fita métrica plástica, tendo como ponto referencial o pólo superior da patela. O perímetro foi aferido a 5, 10 e 15 cm acima do ponto referencial.

A força muscular dos extensores do joelho foi aferida por meio de um dinamômetro de mola, com o indivíduo sentado a mesa de exame realizando extensão máxima da perna. As 2 extremidades do dinamômetro foram fixadas, através de faixas inelásticas, à mesa de exame e ao tornozelo do examinando.

Os indivíduos dos grupos B e D foram submetidos a exercícios de fortalecimento do quadríceps femoral – contração isométrica e flexão do joelho em cadeia cinética fechada. O protocolo constou de 3 séries de 20 contrações musculares do quadríceps femoral mantidas por 10 segundos e 3 séries de 10 semi-flexões do joelho em cadeia cinética fechada.

Nos integrantes dos grupos C e D foi aplicado a ES. No qual foi utilizado o Kinesis Corrente Russa, fabricado pela KW Indústria Nacional de Tecnologia Eletrônica Ltda – São Paulo – Brasil. A ES foi aplicada na musculatura do quadríceps femoral, ao nível do reto femoral e vasto medial oblíquo, através de eletrodos auto-adesivos, durante 15 minutos, numa intensidade confortável e suficiente para proporcionar uma contração visível.

Os indivíduos foram atendidos no Laboratório de Eletroterapia 3 vezes por semana, durante 8 semanas.

RESULTADOS

Para se obter resultados com dados estatísticos utilizou-se o teste de Mann-Whitney para as variáveis da perimetria e dinamometria. Destaca-se que tanto na perimetria como na dinamometria foi utilizada a variável média entre as duas coxas, direita e esquerda. E na perimetria também foi utilizada a variável média entre as 3 medidas das distâncias de 5, 10 e 15 cm acima do pólo superior da patela.

Analisando os dados da perimetria, em termos descritivos, pode-se dizer que houve um crescimento significante em todos os grupos experimentais e uma diferença visível no ganho médio entre os grupos (gráficos 1 e 2). Através do teste de Mann-Whitney foi comprovado uma significativa diferença entre os grupos, controle e experimentais. Não apresentou-se diferença significante apenas entre os grupos C e D, pois o valor da probabilidade de significância (P) foi bastante superior ao nível de significância considerado (P=0,7042). Pode-se afirmar que existe diferença significativa quando P < 0,05 (tabela 1).

Para os resultados da dinamometria pode-se afirmar também que houve aumento em todos os grupos e uma diferença significante entre eles (gráficos 3 e 4). No entanto, estatisticamente, não verificou-se diferença significante entre os grupos B e C e os grupos C e D (P=0,6310 e P=0,7488, respectivamente) (tabela 2).

Gráfico 1 (figura omitida)

Ganho médio de massa muscular medida por perimetria segundo diferentes tratamentos

Gráfico 2 (figura omitida)

Comportamento do ganho de massa muscular medida por perimetria utilizando diferentes tratamentos

(Tabela 1)

Grupos Conclusão P value

A x B Houve diferença entre as médias dos tratamentos 0.0136

A x C Houve diferença entre as médias dos tratamentos 0.0000

A x D Houve diferença entre as médias dos tratamentos 0.0000

B x C Houve diferença entre as médias dos tratamentos 0.0445

B x D Houve diferença entre as médias dos tratamentos 0.0327

C x D Não houve diferença entre as médias dos tratamentos 0.7042

Gráfico 3 (figura omitida)

Ganho médio medido por dinamometria segundo diferentes tratamentos

Gráfico 4 (figura omitida)

Comportamento do ganho medido por dinamometria utilizando diferentes tratamentos

(Tabela 2)

Grupos Conclusão P value

A x B Houve diferença entre as médias dos tratamentos 0.0250

A x C Houve diferença entre as médias dos tratamentos 0.0250

A x D Houve diferença entre as médias dos tratamentos 0.0051

B x C Não houve diferença entre as médias dos tratamentos 0.6310

B x D Houve diferença entre as médias dos tratamentos 0.0131

C x D Não houve diferença entre as médias dos tratamentos 0.7488

DISCUSSÃO

Os resultados desta experiência indicaram que a ES é realmente eficaz num programa de fortalecimento muscular. Embora o grupo treinado com os exercícios tenha apresentado evolução quanto às variáveis força e massa muscular, os grupos eletroestimulados obtiveram melhores resultados.

Estes achados contrastam com os resultados de Currier et al3, Massey et al11 e Currier e Mann4. Todos demonstraram não haver diferença significante, na aquisição de força muscular, entre grupos treinados com ES e contrações voluntárias.

Por outro lado, alguns estudos já publicados1, 5, 6, 17 concordam com os resultados desta investigação. Delitto et cols5 compararam a efetividade de 2 protocolos de fortalecimento muscular. Após o término da experiência, seus resultados mostraram que os indivíduos submetidos ao protocolo de ES apresentaram percentuais mais altos, com relação a força muscular, do que os indivíduos do grupo de exercícios.

Apesar dos achados citados, tais comparações são apenas sugestivas; devido a enorme variedade de protocolos utilizados (número de sessões, tipo, intensidade e freqüência da corrente, etc.) comparações fidedignas são difíceis.

CONCLUSÃO

Ao final deste estudo, conclui-se que:

- Todos os grupos experimentais evoluíram quanto às variáveis força e massa muscular.

- Os grupos eletroestimulados apresentaram melhores resultados do que o grupo de exercícios.

- A ES foi eficaz no fortalecimento e na aquisição de massa muscular.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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